Um ato de fé na ignorância

17/12/2012 15:00

Escrito por Felipe Melo | 16 Dezembro 2012
Artigos - Movimento Revolucionário

 

Decerto o Dr. Bagno deve viver em uma determinada realidade em que Mr. Catra ou Erika Leonard James, autora de “Cinquenta tons de cinza”, representam cultura.


O recente showzinho virtual capitaneado pelo Dr. Bagno a uma platéia das mais privilegiadas levantou uma questão interessante: a facilidade com que as pessoas no geral aderem a rótulos e alheiam-se da realidade para melhor poderem atacar esses rótulos. O Dr. Bagno e suas bagnettes não utilizaram qualquer espaço virtual para contestarem nossas ideias, apontarem falhas em nossos raciocínios, contra-argumentarem de modo estruturado e honesto. O que houve, ao invés disso, foi uma avalanche de ilações e achismos baseados unicamente numa frágil superioridade moral que eles, definitivamente, não possuem. De modo a não seguir o mesmo caminho detestável, resolvemos ler alguma peça produzida pelo Dr. Bagno e, assim, familiarizarmo-nos com seu “pensamento”. O texto que escolhemos chama-se “Norma lingüística & preconceito social: questões de terminologia”, publicado Revista de Estudos Lingüísticos Veredas, editada pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

No início de seu texto, o Dr. Bagno aponta que o termo norma culta:

trata-se muito mais de um preconceito do que de um conceito propriamente dito. E que preconceito é esse? É o preconceito de que existe uma única maneira “certa” de falar a língua, e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que aparece estampado nos livros chamados gramáticas. Por sua vez, essas gramáticas se baseariam, supostamente, no uso feito por um grupo muito especial e seleto de pessoas, os grandes escritores da língua, que também costumam ser chamados de “os clássicos”. Inspirados nos usos que aparecem nas grandes obras literárias, sobretudo do passado, os gramáticos tentam preservar esses usos compondo com eles um modelo de língua, um padrão a ser observado por todo e qualquer falante que deseje usar a língua de maneira “correta”, “civilizada”, “elegante” etc. É esse modelo que recebe, tradicionalmente, o nome de norma culta. (Grifos do original)

Já evocamos mais de uma vez que o próprio conceito de luta de classes foi extravasado do âmbito meramente social e, aplicado a todas as relações pessoais existentes, consegue subverter-lhes a essência e tornar a vida um verdadeiro inferno. Paulo Freire se valeu da aplicação desse conceito no campo educacional para advogar que os professores “Caxias” eram opressores sanguinários que seguiam uma lógica estupidificante de educação e que, portanto, era necessário libertar os oprimidos. Aqui, vemos um fruto da nefanda lógica freireana: a chamada “norma culta” é, na verdade, um instrumento de repressão sócio-lingüístico utilizado por uma pretensa elite intelectual opressora. Mais adiante, escreve o Dr. Bagno:

Ao longo dos séculos, os defensores dessa concepção tradicional de isolaram a língua, a retiraram da vida social, a colocaram numa redoma, onde deveria ser mantida intacta, “pura” e preservada da “contaminação” dos “ignorantes”. Por isso, até hoje, o professor de português ou, mais especialmente o gramático, é visto como uma espécie de criatura incomum, um misto de sábio e mágico, que detém o conhecimento dos mistérios dessa “língua”, que existe fora do tempo e do espaço – e é esse “saber misterioso” que costumo chamar de “norma oculta”...

Uma coisa bastante curiosa nessas primeiras linhas, e que já é possível notar, é a ideia de que todos os defensores do uso da norma culta na comunicação crêem firmemente que qualquer pessoa deve se expressar de maneira corrente como se fosse um avatar de Machado de Assis, Luís de Camões, Eça de Queiroz ou Alphonsus de Guimaraens, e que qualquer pessoa que ouse não fazê-lo é uma espécie de criminoso lingüístico dos mais atrozes. Eu jamais vi qualquer gramático defender uma sandice dessas. O único crime cometido pelos gramáticos, na opinião do Dr. Bagno, parece ser o fato de defenderem que a compreensão de uma mensagem não é o único elemento que caracteriza uma comunicação correta.

Podemos exemplificar isso com um exemplo muito, muito simples. Tomemos a seguinte frase: “Jesus disse que nos amássemos uns aos outros”. Como podemos ver, o verbo “amar” está na primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do subjuntivo e, portanto, a palavra gerada – “amássemos” – é uma proparoxítona. Agora, suponhamos que a pessoa que escreve a frase ignore que a palavra em questão é acentuada e escreva: “Jesus disse que nos amassemos uns aos outros”. Uma mensagem foi compreendida? Sim. Que mensagem? Esta: amassar-nos uns aos outros foi uma orientação de Jesus. A comunicação foi efetiva? Nesse caso, não, pois a mensagem que o emissor quis passar – de que Jesus pediu que as pessoas se amassem – foi subvertida por um sentido completamente alheio. E isso é uma questão de utilização da norma culta.

Ao contrário que dito pelo Dr. Bagno, a norma culta da língua não se refere à transformação da linguagem corrente em uma verborréia literária cheia de floreios decorativos anacrônicos e absolutamente desnecessários. O bom uso da língua não reside apenas num vasto conhecimento lexical ou no domínio pleno das figuras de linguagem, mas é, antes de tudo, uma questão de lógica. Se eu quero dizer que a maçã é vermelha, eu devo saber que “maçã” é um substantivo feminino, que “vermelha” é uma qualificação e que o verbo “ser”, flexionado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, estabelece uma relação entre essas duas palavras. Se eu digo “o maçã é vermelho” ou “a maçã ser vermelha”, é bem provável que a mensagem que eu quero comunicar seja recebida pelo meu interlocutor; todavia, isso se dá em virtude da simplicidade do que se quer comunicar: mensagens cada vez mais complexas não conseguirão ser formuladas sem que um mínimo de coerência lógica seja mantida.

É claro que a boa lógica na comunicação não é algo sacrossanto e intocável. Diversos grandes escritores – como, por exemplo, Guimarães Rosa – sacrificaram a lógica lingüística em prol de peças estupendas do ponto de vista poético. No entanto, há que se esclarecer uma coisa: não é possível brincar com algo que se desconhece. Figuras de linguagem usadas de modo corrente por todas as pessoas – como a paranomásia (comumente chamada de trocadilho), a ironia, a hipérbole e a metáfora – só surtirão o efeito almejado se o emissor e o receptor dominarem as mínimas regras lógicas subjacentes a essas figuras. E é justamente isso que amplia as possibilidades de comunicação, que enriquece o pensamento e faz cócegas no intelecto. Sem isso, a língua se torna pobre e limitada.

No entanto, não é bem isso que o Dr. Bagno acha. Eis mais um ponto de seu parecer (grifos do original):

Para começar, quando alguém diz que uma determinada norma, que uma determinada maneira de falar e de escrever é culta, automaticamente está deixando entender que todas as demais maneiras de falar e de escrever não são cultas – são, portanto, incultas, com todos os sentidos possíveis capazes de se abrigar por trás da palavra inculto: “rude”, “tosco”, “grosseiro”, “bronco”, “selvagem”, “incivilizado”, “cru”, “ignaro”, “ignorante” e por aí vai, e vai longe...Ora, do ponto de vista sociológico e antropológico, simplesmente não existe nenhum ser humano que não seja culto, isto é, que não participe de uma cultura, que não tenha nascido dentro de um grupo social com seus valores, suas crenças, seus hábitos, seus preconceitos, seus costumes, sua arte, suas técnicas, sua língua... (Faraco, 2002). A questão, como bem sabemos, é que no senso comum só se considera culto aquilo que vem de determinadas classes sociais, as classes sociais privilegiadas. Quando dizemos que uma pessoa é muito “culta”, que tem muita “cultura”, estamos dizendo que ela acumulou conhecimentos de uma determinada forma de cultura, uma entre muitas: no caso, a cultura baseada numa escrita canonizada, a cultura livresca, a cultura que é fruto da produção intelectual e artística valorizada pelas classes sociais favorecidas, detentoras do poder político e econômico.


Decerto o Dr. Bagno deve viver em uma determinada realidade em que Mr. Catra ou Erika Leonard James, autora de “Cinquenta tons de cinza”, representam cultura. Todavia, T. S. Eliot, que dedicou um livro inteiro ao assunto – “Notas para uma definição de cultura” – lança algumas luzes sobre o assunto que podem deixar o Dr. Bagno ligeiramente desconfortável (grifos nossos):

Existem vários tipos de realizações que podemos ter em mente em contextos diferentes. Podemos pensar em refinamento das maneiras – ou urbanidade e civilidade: nesse caso, pensaremos primeiramente numa classe social, e no indivíduo superior como representante do melhor dessa classe. Podemos pensar em erudição e muita intimidade com a sabedoria acumulada do passado: nesse caso, nosso homem de cultura é o erudito, o scholar. Podemos estar pensando em filosofia no sentido mais amplo – um interesse por, e alguma capacidade em manipular, idéias abstratas: nesse caso, podemos referir-nos ao intelectual (reconhecendo o fato de que esse termo é usado agora muito frouxamente para abarcar muitas pessoas não muito notáveis pela força do intelecto). Ou podemos estar pensando nas artes: nesse caso, queremos indicar o artista e o amador ou diletante. Mas raramente temos em mente todas essas coisas ao mesmo tempo. [...]Se examinarmos as diversas atividades culturais arroladas no parágrafo anterior, devemos concluir que a perfeição em qualquer uma delas, com exclusão das outras, não pode conferir cultura a ninguém. Sabemos que boas maneiras sem educação, inteligência ou sensibilidade para as artes, tendem a ser mero automatismo; que erudição sem boas maneiras ou sensibilidade é pedantismo; que a capacidade intelectual sem os atributos mais humanos é tão admirável quanto o brilho de uma criança-prodígio em xadrez; e que as artes sem o contexto intelectual é vaidade. E se não encontramos cultura em qualquer dessas perfeições isoladamente, não devemos esperar que alguma pessoa seja perfeita em todas elas; podemos até inferir que o indivíduo totalmente culto é uma ilusão; e iremos buscar cultura, não em algum indivíduo ou em algum grupo de indivíduos, mas num espaço cada vez mais amplo; e somos levados, afinal, a achá-la no padrão de toda sociedade. Isso me parece uma reflexão bastante óbvia, porém é negligenciada com muita freqüência. Sempre somos propensos a considerar-nos pessoas de cultura, com base numa competência, quando somos não só faltos de outras, mas cegos às que nos faltam. Um artista de qualquer tipo, mesmo um artista renomado, não é por essa única razão um homem de cultura; os artistas não somente são insensitivos às outras artes que não aquelas que praticam, mas também, às vezes, têm péssimas maneiras e dons intelectuais escassos. A pessoa que contribui para a cultura, por mais importante que possa ser sua contribuição, nem sempre é uma “pessoa culta”.

 

 

T. S. Eliot

 

Do apuradíssimo raciocínio de Eliot, podemos inferir que o fato de alguém dominar unicamente a norma culta de um idioma não a transforma automaticamente em uma pessoa culta, mas que não dominar a norma culta de um idioma automaticamente a transforma em uma pessoa inculta. Explicando melhor: dominar apenas um aspecto do que é, de fato, cultura não torna ninguém culto, pois é preciso dominar uma gama de características para tanto.

É necessário dizer que, em qualquer momento, levantou-se a opinião (perniciosa, realmente) de que pessoas incultas são, de alguma forma, subumanas. Não é necessário ser um indivíduo altamente letrado, elegante, distinto, educado, enfim, um dândi burguês, para ser uma pessoa mais livre e menos limitada. James V. Schall, professor de Filosofia Política da Universidade de Georgetown, escreve em “A Student’s Guide to Liberal Learning” que onde há uma mente e a realidade, é possível descobrir a verdade das coisas. Mas parece evidente que, quanto menor for a capacidade de utilizar conhecimentos diversificados nesse intento, tanto mais difícil e ingrata será essa tarefa.

E este deveria ser um dos objetivos primordiais do ensino: auxiliar as pessoas na aquisição de um ferramental intelectual que ampliasse sua capacidade de compreensão do mundo e apreensão das coisas como elas são. Não é o que defende o Dr. Bagno. Para ele, a norma culta, integrante desse ferramental ao qual nos referimos, “paira acima de nós como uma espada pronta para decepar nossas cabeças [e] há muito tempo já deixou de ser um instrumento de regulação lingüística: é, sim, um instrumento de opressão ideológica, de perseguição, de patrulha social, de discriminação e preconceito.” Não conseguimos enxergar como a limitação intelectual advinda da ignorância possa ser libertadora, mas parece que essa lógica deturpada tem bastante eco na universidade de nossos tempos.

Felipe Melo edita o blog da Juventude Conservadora da UnB

 

Fonte: http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/13690-um-ato-de-fe-na-ignorancia.html