Por que o brasileiro não gosta de política?

27/10/2012 21:01

Alessandro Barreta Garcia

www.alessandrogarcia.org

 

            O brasileiro não gosta de política porque seu universo é individualista e a política é essencialmente coletiva. Hoje, como nunca antes na história deste país, o brasileiro é levado a odiar política e odiar os políticos. Com um materialismo dominante, o individuo nessa condição apenas vive conforme seus extintos e sempre busca o que lhe satisfaz particularmente, mesmo que seja uma porcaria. Todavia, se os políticos não se preocupam comigo, por que devo me preocupar com eles? Questionam os jovens. No entanto somos nós que os elegemos, e a responsabilidade pela porcaria também é nossa.

            Nas ruas observamos e escutamos o sujeito com aquela “música” deplorável, com um volume inversamente proporcional, ou seja, quanto mais alto o individuo escuta seu ruído, pior é a qualidade da “obra”. Os livros a serem lidos pelos jovens e adultos sempre são aqueles de alto ajuda, não uma autoajuda clássica como Marco Aurélio em suas Meditações, mas uma autoajuda na medida de um Paulo Coelho.

            Em cinemas, espetáculos, teatros, bares ou restaurantes, a fila para “saborear” o evento é proporcional às encontradas em feriados rumo ao litoral paulista. Uma mera demonstração de doença coletiva. A passividade brasileira já retratada por Monteiro Lobato, e muitas vezes com um excesso de nacionalismo é emblemático de nossa geração. Uma geração perdida.

            Um nível educacional de saltar aos olhos, por incrível que pareça ainda leva jovens a comemorar sua chegada ao ensino superior. Festas, trotes regados a muita bebida e drogas para talvez lhe afastar do óbvio, e perguntar-te a ti mesmo. Está comemorando o que? Nossa melhor universidade sequer aparece entre as 100 melhores do mundo[1], imagine a pior.

            Quando nos perguntamos, o que inspira nossos jovens? A resposta é das mais diversas, contudo, arriscamos uma resposta.

            Epicuro no período helenístico da era grega, logo de inicio já se afasta como característico do período de um componente metafísico ou suprassensível da escola clássica de Sócrates, Platão e Aristóteles. Conforme Reale (1994), abrindo mão do suprassensível, restaria aos filósofos da época se voltar para o physis ou mundo físico (materialista). Nessa ocasião, os elementos naturalistas, principalmente de Demócrito por meio do átomo solto e isolado colaboravam para novas interpretações da realidade.

            O jardim de Epicuro é evidentemente ponto essencial para a compreensão da nova atmosfera nas discussões filosóficas. No período clássico as instituições se faziam presentes até mesmo como modelo das grandes universidades. Para Epicuro, o jardim mais que uma instituição de ensino, simboliza a ideia de natureza e de ensino na natureza, dessa forma, nada melhor que um jardim. Viver isolado na natureza e fora do convívio das grandes cidades é o ponto central das escolas helenísticas mais decadentes.

            Como fundamento real de sua doutrina, Epicuro isolado dos grandes centros afasta-se da dor e se direciona ao prazer. Daí se cumpre as necessidades básicas para eliminar a dor. Se a fome é um incomoda e, portanto dolorosa, eu me alimento, se sinto sono e isso é doloroso eu durmo. Assim como atributos básicos da vida diária, cabe ao indivíduo realizar apenas o necessário, afastando-se do que lhe provoca dor. As sensações do mundo físico ou empírico delimitam as ações e fazem delas puro sistema materialista com base nas certezas objetivas das experiências do senso comum.

            Conforme Reale (1994):

 

            “A sensação é, portento, irrefutável, porque não se lhe pode opor nada: a) nem    outra sensação homogenia, porque tem o mesmo valor; b) nem uma heterogênea,          porque se refere a um objeto diferente; c) nem a razão, porque esta depende da         sensação e não vice-versa” (p. 160).

 

            Epicuro com base no mundo físico desenvolve uma ética baseada nas experiências e nas relações entre prazer e dor. Para Epicuro, tudo é átomo, e diferente de Demócrito tudo é casual. Inevitavelmente se as ações bem como os resultados destas se pautam na experiência, o fundamento da ação para Epicuro determina seus próprios problemas de forma isolada, ou seja, de forma individualista, aleatória ou casual.

            Deste modo, os valores morais segundo Reale (1994) são substituídos por valores subjetivos. A justiça mostra-se como valor relativo e sendo essa a nova ética, a moral clássica tão valorosa perde seu esplendor. Tudo é a busca de prazer pelo útil individual e isolado dos bens supremos. Esse é o nosso Brasil de hoje, pois o marxismo contagioso no Brasil é de um Marx contaminado de Epicuro. Para Carvalho (2004) “A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel, mas é uma herança epicúrea” (p. 108). Invertendo o sentido de teoria para a prática, para uma prática levada à teoria, o jardim de Epicuro, é agora o jardim de Marx.

            Carvalho (2004) adverte que uma teorização posteriori não tem validade universal, porque se encaixa artificialmente como se fosse fato consumado. A inversão da teoria/prática para prática/teoria levou a as sociedades modernas ao mais puro declínio moral, e demonstra na prática uma verdadeira série de regimes totalitaristas /comunistas partidários dos mais terríveis genocídios a exemplo da URSS, China e Alemanha Nazista.

                       

Referências

 

CARVALHO, O. O jardim das aflições. São Paulo. É realizações, 2004.

 

REALE, G. História da Filosofia antiga – Volume III. São Paulo: Loyola, 1994.

 

Publicado originalmente no MAC:

http://aliancacidada.wordpress.com/2012/10/09/por-que-o-brasileiro-nao-gosta-de-politica/