O andar bípede como principio fundamental do movimento humano

12/08/2011 15:48

O andar bípede como principio fundamental do movimento humano

The bipedal walking as a fundamental principle of human movement

El caminar bípede como principio fundamental del movimiento humano

Alessandro Barreta Garcia
Universidade Nove de Julho – Brasil
Rui Anderson Costa Monteiro
Universidade Nove de Julho – Brasil
Frank Shiguemitsu Suzuki
Universidade Nove de Julho – Brasil

Resumo: Com os milhões de anos de evolução humana, o homem se reconhece através das diferenças, costumes, culturas e do andar bípede. Assim se reconhece no homem um caráter explorador de territórios, construtor de ferramentas que ao longo dos anos se constituíram em humanizar-se. Entendendo assim o universo humano é que o objetivo deste artigo é discutir sobre a relevância do andar bípede como precursor das várias habilidades que compõem o repertório motor do ser humano. A metodologia deu-se a partir do tipo de pesquisa histórica aplicada neste estudo, utilizando-se das referências da antropologia física.

Palavras Chave: Movimento Humano, Andar Bípede, Educação Física, Cultura do Corpo, Evolução Humana.

Abstract: With millions of years of human evolution, man is recognized through differences, customs, cultures and bipedal walking. So if one recognizes the human character territories explorer, builder of tools over the years have been to humanize himself. Understanding the human universe is thus the goal of this paper is to discuss the relevance of bipedal walking as a precursor of the various skills that make up the motor repertoire of humans. The methodology took place from the type of historical research applied in this study, using the references of Physical Anthropology.

Key words: Human Kinetics, Bipedal Walking, Physical Education, Culture Body, Human Evolution.

Resumen: Con millones de años de evolución humana, el hombre se reconoce a través de diferencias, costumbres, culturas y caminar bípeda. Así que si se reconoce el carácter humano explorador de territorios, constructor de instrumentos en los últimos años han sido humanizar a sí mismo. Comprender el universo humano es, pues, el objetivo de este trabajo es discutir la relevancia de caminar bípeda como un precursor de las habilidades que conforman el repertorio de motor de los seres humanos. La metodología se llevó a cabo con el tipo de investigación histórica aplicada en este estudio, utilizando las referencias de la antropología física.

Palabras chavo: Movimiento Humano, Caminar Bípede, Educación Física, Cultura del Cuerpo, Evolución Humana.


INTRODUÇÃO
O homínida diferencia-se do chipanzé,
primeiramente, não pelo peso do cérebro,
nem provavelmente, por suas aptidões intelectuais,
mas sim pela locomoção bípede e a posição vertical.
(Edgar Morin)
    As teorias biológicas, ecológicas, filosóficas, sociológicas, psicológicas, políticas, tecnológicas e até mitológicas, certamente influenciaram os mais diversos discursos da Educação Física de nosso tempo. A partir desses diferentes níveis discurso, muitas são as interpretações sobre o andar bípede, bem como suas implicações na constituição dos exercícios físicos.
Enraizada, essencialmente nas culturas Ocidentais, hoje reconhecemos o andar bípede ao longo da história das Atividades Físicas e ou Exercícios Físicos na Antiguidade Grega e Romana. Nesse sentido o berço da Educação Física no Brasil se apresenta a partir de uma raiz européia, sendo ela a que mais influenciou e direcionou nossa educação.
A partir deste berço, a Educação Física é entendida como uma área de conhecimento, desenvolvida e consolidada sob bases efetivamente ocidentais. Por outro lado, a trajetória evolutiva bem como o desenvolvimento do andar bípede é menos conhecido por professores de Educação Física ao longo dos primórdios de sua evolução.  Sendo assim, nos permite problematizar e questionar a importância de se reconhecer na origem do homem um dos princípios que mais influenciou esse longo caminho de milhões de anos. Portanto perguntamos; qual é a importância do andar bípede para a Educação Física? O objetivo do trabalho consistiu na discussão sobre a relevância do andar bípede como precursor das várias habilidades que compõem o repertório motor do ser humano. Sob a hipótese de que sem o desenvolvimento da bipedia, o homem seria incapaz de manifestar características como as envolvidas em práticas fundamentais do andar, correr saltar, driblar, etc.
    A metodologia deu-se a partir do tipo de pesquisa histórica (interpretativa) (SANTOS; ROSSI e JARDILINO, 2000) aplicada neste estudo, utilizando-se das referências da antropologia física. O levantamento dos fatos históricos resultou em informações originais e inovadoras para o campo de estudo da história e antropologia aplicada na área de conhecimento denominada “Educação Física”.

VINDOS DA ÁFRICA

Hoje mais do que nunca, se sabe que a origem do homem é proveniente do continente Africano. Se Darwin já havia profetizado esta afirmação, ela se consolida ano após ano (LEAKEY; LEWIN, 1981; LEAKEY; LEWIN, 1996). Na era chamada de Mioceno (de 20 a 25 milhões de nos atrás, também entendida como a idade do Antropóide ), este continente era uma extensa floresta tropical, que só a partir de mudanças geológicas entre 18 e 16 milhões de anos atrás é que este veio a se transformar em savana (LEAKEY; LEWIN, 1996).
Anterior a este período (que se estendia até 70 milhões ), a floresta tropical recobria a África ocidental e oriental, e nela habitavam diversos tipos de Antropóides, sendo que algum tipo destes daria origem a nós humanos.
Sabe-se ainda, que por volta de 40 milhões de anos atrás a habilidade das mãos (a preensão), um olhar estereoscópico , que já era existente primitivamente, contribuiria significativamente para nossa posterior evolução (LEAKEY, 1989; LEAKEY; LEWIN, 1996). Nestes tempos, foram estabelecidas também sucessivas modificações entre prossímios que deram lugar aos macacos, nos quais foram por volta dos 30 milhões de anos atrás dando espaço aos Antropóides, que viriam a se expandir por meio do dependurar em árvores na busca de frutas.
A partir da junção entre a África, Europa e Ásia pela manifestação da natureza que se iniciou ao fundo do mar originaram-se uma vasta crosta de terra que foi se constituindo no que hoje reconhecemos por grandes vulcões em extinção ou quase em extinção.
As camadas vulcânicas (hoje de 914 metros de sedimentos e 1,524 metros de altura) se constituíam em variações ambientais entre montanhas e savanas, o que certamente viriam alterar drasticamente o “habitat” das espécies existentes naquela época (LEAKEY; LEWIN, 1996). Assim possivelmente, estes foram os fatores que contribuiriam na pressão do ambiente frio e seco sobre as espécies existentes na época.
Dessa modificação ambiental, formou-se o vale da Grande Fenda partindo do Quênia para a Etiópia. Formava-se neste território o lago Turkan, um excepcional sítio arqueológico, o que hoje ainda proporciona grandes descobertas entre os arqueólogos.
Segundo Leakey e Lewin (1996), entre 10 e a 15 milhões de nos atrás, três principais criaturas viveram neste ambiente, foram os Gigantopithecus, os Sivapithecus e os Ramapithecus. O mais provável a ser o nosso ancestral é o Ramapithecus brevirostris (Rama = príncipe de um poema indiano, e brevirostris = focinho curto), ainda assim, pouco se sabe deste, que media cerca de 91,5 cm de estatura. Somente após trinta anos desta descoberta por Edward Lewis e Louis Leakey, pai de Richard Leakey é que se difundiu tal conhecimento.
Louis Leakey encontrou em 1961 (no Quênia) um fóssil que confirma as primeiras teorias de Lewis, 30 anos antes. Fato este que conduziu diversos pesquisadores a reexaminarem os antigos fósseis já encontrados na Índia e no Paquistão, tornando a coleção da mesma espécie de Ramapithecus encontrado por Lewis mais convincente (HOWELLS, 1975; LEAKEY; LEWIN, 1996).

O INÍCIO DAS DESCOBERTAS HUMANAS

Nos primórdios do conhecimento (século XVII) evolutivo, acreditou-se que a terra foi criada a menos de 6.000 anos, sua data exata, a partir de um estudo minucioso da Bíblia, realizado pelo arcebispo James Ussher, era de 4.004 a. C, sendo acrescido da data precisa de 23 de outubro, às nove horas da manhã por John Light-foot (LEAKEY; LEWIN, 1981). Por outro lado, dados geológicos contradizem essa informação, pois muitos fósseis de animais foram encontrados em camadas e datas geológicas diferentes.
No século XIX muitas teorias foram sendo expostas. Curvier que apresentava sua teoria de catastrofísmo, explicava inclusive que o dilúvio teria sido o último dos catastrofísmos o que de certa forma endossava o Dilúvio Bíblico. Já a outra teoria era a do Uniformitarianismo que inspiraria a futura teoria de Charles Darwin. Inicialmente coube a seu avô Erasmus Darwin, questionar qual era nossa ascendência e como as espécies se transformavam? (LEAKEY; LEWIN, 1981).
Para o biologista Lamarck, a resposta de nossa evolução se dava a partir de transformações continuas e cumulativas, era o meio agindo sobre a espécie (LEAKEY, LEWIN, 1981; FUTUYAMA, 1992).  Seu célebre exemplo do pescoço da girafa seria então contestado pela ciência moderna. Como poderíamos evoluir apenas com base no uso e desuso?
Apesar do esforço para assegurarem as leis divinas, em 1848 um crânio foi encontrado em Gibraltar, sendo este considerado na época um homem do tempo remoto, um Neanderthal. A seguir, em 1856, um segundo crânio foi encontrado no vale de Neander e possivelmente teria uma idade próxima de 30 a 100 mil anos. Após uma série de discussões e grandes desencontros de informação, alguns acreditavam que eram homens da idade antiga, outros acreditavam que não passavam de homens da idade moderna, doente ou golpeado pelos combates da época (LEAKEY; LEWIN, 1981).
Em 1868 restos de esqueletos e um inconfundível crânio teriam sido descobertos na França, ficariam conhecidos como homens de Cro-Magnon (deveria pertencer ao período paleolítico superior que corresponderia a 30 mil anos atrás). Em 1886 mais dois esqueletos seriam descobertos com uma idade aproximada de 40 mil anos (LEAKEY; LEWIN, 1981). Apesar de muitas descobertas de impacto, somente em 1859 quando Charles Darwin publicava a origem das espécies é que este quadro começava a ser mudado.
Apesar de grande impacto que exerceu a teoria de Darwin, foi seu amigo Thomas Henry Huxley quem defendeu sua teoria pela primeira vez, também foi o primeiro que anunciou publicamente que temos uma suposta ascendência dos macacos da África. Este fato ocorrera na famosa batalha acadêmica da Reunião anual da Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência em 1860 (LEAKEY; LEWIN, 1981). Agora só bastava encontrar o elo perdido.
Após a publicação da origem das espécies, uma mudança significativa viria a acontecer na década de 70 do século XIX. Darwin publicaria outras obras que tratariam da evolução humana propriamente dita, ainda que timidamente “a descendência do homem” e a “seleção em relação ao sexo”, seriam importantes para uma busca desenfreada por parte dos evolucionistas da época (LEAKEY; LEWIN, 1981).
Na atual circunstância, não era mais possível fechar os olhos para a aparente evolução humana, nesse sentido, o naturalista Alemão Ernst Haeckel propôs hipoteticamente uma árvore genealógica, na qual ligava o homem moderno a um ancestral comum ao antropóide e também aos símios e, neste caso deveria existir um ramo intermediário que o naturalista viria a chamar de Pithecanthropus alalus, seria este o elo perdido? (LORING BRACE, 1979).
Já não contente com tal descoberta, Eugene Dubois, um médico Holandês que lecionava anatomia, seguiu em busca do tal elo perdido. De Sumatra se transferiu para Java, sendo que por volta de 1891 descobriu uma calota craniana, um fêmur e uma pelve chamada de Pithecanthropus erectus (LORING BRACE, 1979). Este achado seria classificado posteriormente como um Homo erectus (JOHANSON; EDEY, 1996).
Apesar do esforço atribuído em torno de se apresentar estes achados como um possível elo perdido, pouca atenção foi dada aos fatos, assim, foram considerados os achados, meros antropóides. Neste ínterim, outro professor de anatomia Gustan Schwalbe classificou as descobertas como Pithecanthropus erectus, Neanderthal e Homem Moderno (LORING BRACE, 1979).

OS AUSTRALOPITHECUS

Após todas estas descobertas, somente em 1924 é que Raimond Dart descobriu dentro do continente africano o que denominou tecnicamente de Australopithecus africanus (LEAKEY; LEWIN, 1981).
Na década de trinta do século XX, o fóssil atualmente chamado de o homem de Pequim (Sinanthropus), mudou as atenções em torno do Australopithecus de Dart . Posteriormente, muitos outros fósseis foram encontrados na Alemanha e França (LEAKEY; LEWIN, 1981). A partir destes achados, pode-se fazer uma série de reflexões, pois as epífises ósseas de fêmures descobertos significariam a marcha ereta (bípede) dos homens primitivos, o bipedalismo entre os primeiros humanos e também, seria o inicio do Movimento Humano.
Basicamente, entre inúmeros achados; crânios, pélvis ou fêmures, se formula a ideia central de que o homem se originou na África e que de fato evidências apontam para uma posição ereta (bípede) há cerca de milhões de anos atrás.
Em 1959 Mary Leakey, descobre o primeiro crânio de 1,8 milhões de anos, um Australopithecus  (Zinjanthropus boisei) encontrado próximo a ferramentas descobertas em 1931 pela própria pesquisadora  (LORING BRACE, 1979; JOHANSON; EDEY, 1996).
Cronologicamente falando, as recentes descobertas por ordem de antiguidade são; os Australopithecus ramidus e anamensis de White (com 4,5 milhões de anos), Australopithecus afarensis de Johanson (com 3,5 milhões de anos), Australopithecus africanus de Dart (com 3 milhões de anos), e os Australopithecus boisei da família Leakey (com 2,7 milhões de anos) (LEAKEY; LEWIN, 1981; FOLEY, 2003). Daí para frente, se acrescenta, Australopithecus robustus, rudolfensis, Homo ergaster, homens de neandertal, Homo sapiens e o Homo sapiens - sapiens (o homem moderno).
O mais conhecido pela comunidade científica, o Australopithecus afarensis com 3,5 milhões de anos, tendo o apelido de Lucy por ocasião, pois no momento da descoberta, os pesquisadores estariam escutando Lucy in the Sky with Diamonds dos Beatles (JOHANSON; EDEY, 1996).
Posteriormente White e Leakey apresentaram os Australopithecus ramidus e anamensis de 4,5 milhões de anos. Por fim os mais recentes achados são os Sahelanthropus tchadensis e o Orrorin tugenensis, porém estes achados ainda não se mostram bem definidos e bem esclarecidos pela comunidade científica. Más certamente no futuro próximo, a evolução humana se estenderá em torno de 7 milhões de anos atrás, ou mais (BRUNET et al 2002).
Para Lovejoy apud Johanson e Edey (1996), é praticamente incontestável que a locomoção bípede tenha liberado os braços para carregar crianças e objetos, e que isto tenha proporcionado um maior desenvolvimento locomotor na busca de novos horizontes, o que pressupõe novos horizontes motores e culturais.
Através dessas descobertas aqui apresentadas, o bipedalismo, ou seja, o andar bípede pode ser considerado como um dos principais fatores que proporcionaram um melhor entendimento dos aspectos gerais de evolução humana.
Com as primeiras definições do andar bípede, podendo chamar-se de Movimento humano, diversos estudos antropológicos iniciaram outra discussão, que na realidade conduziria posteriormente ao entendimento da Cultura e posteriormente da Cultura do Corpo (DAOLIO, 1999; DAOLIO, 2002).
O Antropólogo Tylor deu o primeiro passo, e a cultura significaria para ele:“é aquele todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLOR, 2005, p.69).
O termo cultura só se estruturou conceitualmente com a junção de Kultur e Civilization (Kultur designando os aspectos espirituais de uma comunidade, e Civilization as realizações materiais de um povo), sendo posteriormente modificado em função de estudos do Antropólogo Franz Boas, que a partir de um modelo com base na unidade psíquica, passa a o entender o homem, a partir de um determinado relativismo cultural (LARAIA, 2003).
Já o Antropólogo Americano Clinford Geertz, mencionando as descobertas dos Australopithecus que possuíam um cérebro cerca de 1/3 menor que o do ser humano, propôs o entendimento dos traços de uma semicultura proveniente da manufatura de objetos, caça, e pesca de animais na trajetória evolutiva do homem (LARAIA, 2003).
Conforme Geertz (1989), a evolução do homem enquanto ser social não pode ser aceito somente a partir do aumento quantitativo no número de neurônios, mas muito mais além, do que somente um entendimento determinista e reducionista. Para Geertz:

Se a existência de um tipo moderno de mente é considerada pré-requisito para a aquisição da cultura, a posse universal da cultura por parte de todos os grupos humanos contemporâneos faz com que a doutrina da unidade psíquica seja uma simples tautologia (GEERTZ, 1989, p.75)  .

    Se a manipulação de objetos, a manufatura de ferramentas e prováveis caçadas a pequenos animais realmente ocorreram e isto é praticamente incontestável, é provável se pensar em uma espécie de cultura semi – estruturada, a ponto de contribuir para a evolução do andar bípede ao longo de milhões de anos atrás, sendo assim capaz de se compreender o Movimento Humano como fator predominante na Educação primitiva.
De acordo com Geertz:

Um ser humano sem cultura seria, provavelmente, não um macaco intrinsecamente talentoso, embora incompleto, mas apenas uma monstruosidade totalmente sem mente e, em conseqüência, sem possibilidade de ser trabalhada (GEERTZ, 1989, p.81).

Langer citado por Geertz (1989) acrescenta, “em virtude de nosso pensamento e de nossa imaginação, dispomos não apenas de sentimentos, mas de uma vida de sentimentos” (p. 95, 1989).
Acredita-se que o esse sentimentos expressos em Movimento Humano ou a Cultura do Corpo, só puderam ser entendidos a partir de uma série de linguagens motoras, sentidos e valores passados e repassados nos mais longínquos limites de nossa história. Sendo, estes, parte integral na relação do andar bípede, com o aumento do tamanho do cérebro, diminuição dos dentes caninos, liberação das mãos para uso de artefatos, caça, pesca, construção de artefatos, sociabilização de pequenos grupos, alimentação carnívora, constituição das emoções e da linguagem verbal.
Nesse sentido, entendemos que o Movimento Humano e posteriormente a Cultura do Corpo é todo um complexo de informações, que só puderam estar disponíveis, na medida em que o homem foi interagindo com o ambiente. Segundo as observações do sociólogo Marcel Mauss, as técnicas corporais foram possíveis na medida em que inúmeras civilizações se portaram de maneira diferenciada, com tropas marchando de maneira diferenciada, nadando de maneira diferenciada, ou seja, possuindo técnicas diferentes (MAUSS, 1974). Sendo estas técnicas, uma conseqüência de fatores evolutivos, diferenciados ao longo dos milhões de anos atrás, principalmente do andar bípede, que nada mais é que o posterior desenvolvimento da Cultura do Corpo.
Segundo Morin (1975), muito da gênese evolutiva, encontra-se na apropriação do conhecimento, que vai romper com a fragmentação do homem anatômico (pés), homem psicológico (cabeça), homem genético (mutação), homem ecológico (avanço para as savanas) e homem sociológico (social). Para Morin (1975), no que se refere ao homem “O desenvolvimento e a conservação de sua autonomia estão ligados a um grande número de dependências educativas (longa escolaridade, longa socialização), culturas e técnicas” (MORIN, p.31, 1975).
Para Vasconcelos (2001), não nascemos prontos ou acabados para viver em sociedade é preciso buscar informação, buscar cultura, pois assim deverá o homem produzir sua própria existência.
Foi preciso entender, as condições com que o processo evolutivo proporcionou um maior nível de informação, para podermos entender as diversidades ambientais, culturais e sociais que contribuam efetivamente para uma Educação Física Escolar além dos moldes tradicionais. Para Morin (1975, p.60), “a posição de pé é o elemento decisivo que liberaria a mão de toda e qualquer obrigação locomotriz”, é o que poderemos pensar um passo para o “humanizar” e um passo para um Movimento Humano Integral.
Conforme Morin (1975, p.75), “a semi-socialização dos jovens e suas relações com os adultos permitem à sociedade beneficiar-se diretamente das suas inovações e das descobertas”. Pois, assim como o processo evolutivo nos faz deduzir, que é nos jovens que se deu o maior número de descobertas em busca da humanização do homem moderno é neste processo, que certamente ocorreu o maior número de experiências de movimento humano, dando origem ao que podemos entender como sinônimo de Cultura do Corpo.
Isto tudo significa Educação Física, é neste contexto que se consolida a sua origem, a origem da Educação Física na origem da evolução humana, do andar bípede, nas relações sociais e culturais das comunidades primitivas, nos ambientes diversificados e no contexto educacional seja ele formal ou informal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Consideramos que a evolução humana não tem sido aceita somente a partir do aumento quantitativo no número de neurônios, mas muito, em função de toda uma cultura construída pelo próprio homem ao longo de sua evolução. O que para Geertz significa dizer que: “Sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens” (GEERTZ, 1989, p. 61).
Similarmente falando, sem o andar bípede, sem nossos Movimentos não haveria possibilidade de uma Cultura do Corpo, pois o Movimento Humano nada mais é que o andar bípede, a exploração de terreno, a convivência social entre os primeiros homens, Educação informal e Educação do Corpo, na prática da pesca na caça e na corrida primitiva pela sobrevivência, bem como das habilidades de correr, saltar, driblar, arremessar etc.
Sem este Movimento Humano primitivo, não poderia ser possível um desenvolvimento cultural de movimento, entendido hoje como Cultura do Corpo. É no andar bípede rudimentar associado aos fatores cognitivo, afetivo e Social que foi possível entender o homem como produtor de cultura corporal de movimento.
 Com culturas corporais diferentes, seja na técnica, na habilidade física, na capacidade física ou na criatividade de movimento. Seja este ou aquele conceito, que sejam aplicados em beneficio de uma maior quantidade de movimento e uma maior variabilidade de movimento.

REFERÊNCIAS

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DAOLIO, J. Da cultura do corpo. 4.ed. Campinas/SP: Papirus, 1999.

DAOLIO, J. Aspectos Sócio-Culturais e Filosóficos da Motricidade Humana, Livre-docência. Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Brasil, 2002.

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