Considerações sobre o andar bípede como principio fundamental do movimento humano

12/08/2011 15:48



Alessandro Barreta Garcia
Universidade Nove de Julho – Brasil


 

O INÍCIO DAS DESCOBERTAS HUMANAS

 

Nos primórdios do conhecimento (século XVII) evolutivo, acreditou-se que a terra foi criada a menos de 6.000 anos, sua data exata, a partir de um estudo minucioso da Bíblia, realizado pelo arcebispo James Ussher, era de 4.004 a. C, sendo acrescido da data precisa de 23 de outubro, às nove horas da manhã por John Light-foot (LEAKEY; LEWIN, 1981). Por outro lado, dados geológicos contradizem essa informação, pois muitos fósseis de animais foram encontrados em camadas e datas geológicas diferentes.

No século XIX muitas teorias foram sendo expostas. Curvier que apresentava sua teoria de catastrofísmo, explicava inclusive que o dilúvio teria sido o último dos catastrofísmos o que de certa forma endossava o Dilúvio Bíblico. Já a outra teoria era a do Uniformitarianismo que inspiraria a futura teoria de Charles Darwin. Inicialmente coube a seu avô Erasmus Darwin, questionar qual era nossa ascendência e como as espécies se transformavam? (LEAKEY; LEWIN, 1981).

Para o biologista Lamarck, a resposta de nossa evolução se dava a partir de transformações continuas e cumulativas, era o meio agindo sobre a espécie (LEAKEY, LEWIN, 1981; FUTUYAMA, 1992).  Seu célebre exemplo do pescoço da girafa seria então contestado pela ciência moderna. Como poderíamos evoluir apenas com base no uso e desuso?

Apesar do esforço para assegurarem as leis divinas, em 1848 um crânio foi encontrado em Gibraltar, sendo este considerado na época um homem do tempo remoto, um Neanderthal. A seguir, em 1856, um segundo crânio foi encontrado no vale de Neander e possivelmente teria uma idade próxima de 30 a 100 mil anos. Após uma série de discussões e grandes desencontros de informação, alguns acreditavam que eram homens da idade antiga, outros acreditavam que não passavam de homens da idade moderna, doente ou golpeado pelos combates da época (LEAKEY; LEWIN, 1981).

Em 1868 restos de esqueletos e um inconfundível crânio teriam sido descobertos na França, ficariam conhecidos como homens de Cro-Magnon (deveria pertencer ao período paleolítico superior que corresponderia a 30 mil anos atrás). Em 1886 mais dois esqueletos seriam descobertos com uma idade aproximada de 40 mil anos (LEAKEY; LEWIN, 1981). Apesar de muitas descobertas de impacto, somente em 1859 quando Charles Darwin publicava a origem das espécies é que este quadro começava a ser mudado.

Apesar de grande impacto que exerceu a teoria de Darwin, foi seu amigo Thomas Henry Huxley quem defendeu sua teoria pela primeira vez, também foi o primeiro que anunciou publicamente que temos uma suposta ascendência dos macacos da África. Este fato ocorrera na famosa batalha acadêmica da Reunião anual da Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência em 1860 (LEAKEY; LEWIN, 1981). Agora só bastava encontrar o elo perdido.

Após a publicação da origem das espécies, uma mudança significativa viria a acontecer na década de 70 do século XIX. Darwin publicaria outras obras que tratariam da evolução humana propriamente dita, ainda que timidamente “a descendência do homem” e a “seleção em relação ao sexo”, seriam importantes para uma busca desenfreada por parte dos evolucionistas da época (LEAKEY; LEWIN, 1981).

Na atual circunstância, não era mais possível fechar os olhos para a aparente evolução humana, nesse sentido, o naturalista Alemão Ernst Haeckel propôs hipoteticamente uma árvore genealógica, na qual ligava o homem moderno a um ancestral comum ao antropóide e também aos símios e, neste caso deveria existir um ramo intermediário que o naturalista viria a chamar de Pithecanthropus alalus, seria este o elo perdido? (LORING BRACE, 1979).

Já não contente com tal descoberta, Eugene Dubois, um médico Holandês que lecionava anatomia, seguiu em busca do tal elo perdido. De Sumatra se transferiu para Java, sendo que por volta de 1891 descobriu uma calota craniana, um fêmur e uma pelve chamada de Pithecanthropus erectus (LORING BRACE, 1979). Este achado seria classificado posteriormente como um Homo erectus (JOHANSON; EDEY, 1996).

Apesar do esforço atribuído em torno de se apresentar estes achados como um possível elo perdido, pouca atenção foi dada aos fatos, assim, foram considerados os achados, meros antropóides. Neste ínterim, outro professor de anatomia Gustan Schwalbe classificou as descobertas como Pithecanthropus erectus, Neanderthal e Homem Moderno (LORING BRACE, 1979).

 

Os australopithecus

 

Após todas estas descobertas, somente em 1924 é que Raimond Dart descobriu dentro do continente africano o que denominou tecnicamente de Australopithecus africanus (LEAKEY; LEWIN, 1981).

Na década de trinta do século XX, o fóssil atualmente chamado de o homem de Pequim (Sinanthropus), mudou as atenções em torno do Australopithecus de Dart[1]. Posteriormente, muitos outros fósseis foram encontrados na Alemanha e França (LEAKEY; LEWIN, 1981). A partir destes achados, pode-se fazer uma série de reflexões, pois as epífises ósseas de fêmures descobertos significariam a marcha ereta (bípede) dos homens primitivos, o bipedalismo entre os primeiros humanos e também, seria o inicio do Movimento Humano.

Basicamente, entre inúmeros achados; crânios, pélvis ou fêmures, se formula a ideia central de que o homem se originou na África e que de fato evidências apontam para uma posição ereta (bípede) há cerca de milhões de anos atrás.

Em 1959 Mary Leakey, descobre o primeiro crânio de 1,8 milhões de anos, um Australopithecus[2] (Zinjanthropus boisei) encontrado próximo a ferramentas descobertas em 1931 pela própria pesquisadora[3] (LORING BRACE, 1979; JOHANSON; EDEY, 1996).

Cronologicamente falando, as recentes descobertas por ordem de antiguidade são; os Australopithecus ramidus e anamensis de White (com 4,5 milhões de anos), Australopithecus afarensis de Johanson (com 3,5 milhões de anos), Australopithecus africanus de Dart (com 3 milhões de anos), e os Australopithecus boisei da família Leakey (com 2,7 milhões de anos) (LEAKEY; LEWIN, 1981; FOLEY, 2003). Daí para frente, se acrescenta, Australopithecus robustus, rudolfensis, Homo ergaster, homens de neandertal, Homo sapiens e o Homo sapiens - sapiens (o homem moderno).

O mais conhecido pela comunidade científica, o Australopithecus afarensis com 3,5 milhões de anos, tendo o apelido de Lucy por ocasião, pois no momento da descoberta, os pesquisadores estariam escutando Lucy in the Sky with Diamonds dos Beatles (JOHANSON; EDEY, 1996).

Posteriormente White e Leakey apresentaram os Australopithecus ramidus e anamensis de 4,5 milhões de anos. Por fim os mais recentes achados são os Sahelanthropus tchadensis e o Orrorin tugenensis, porém estes achados ainda não se mostram bem definidos e bem esclarecidos pela comunidade científica. Más certamente no futuro próximo, a evolução humana se estenderá em torno de 7 milhões de anos atrás, ou mais (BRUNET et al 2002).

Para Lovejoy apud Johanson e Edey (1996), é praticamente incontestável que a locomoção bípede tenha liberado os braços para carregar crianças e objetos, e que isto tenha proporcionado um maior desenvolvimento locomotor na busca de novos horizontes, o que pressupõe novos horizontes motores e culturais.

 



REFERÊNCIAS

BRUNET, M, et al. A new hominid from the Upper Miocene of Chad, Central Africa. Nature, vol 418, p. 145-152,  2002.

DAOLIO, J. Da cultura do corpo. 4.ed. Campinas/SP: Papirus, 1999.

DAOLIO, J. Aspectos Sócio-Culturais e Filosóficos da Motricidade Humana, Livre-docência. Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Brasil, 2002.

FOLEY, R. Os humanos antes da humanidade: uma perspectiva evolucionista. Tradução de Patrícia  Zimbres. São Paulo: editora UNESP, 2003, 294p.

FUTUYAMA, D. J. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética, CNPq, 1992. 631p.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Guanabara Koogam – Rio de Janeiro, 1989, 323p.

HOWELLS, W. W. Vinte milhões de anos para fazer o homem. 37-55.p. (Org) SCHOBINGER, J; AMORIM. P. M. As origens do homem. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getulio Vargas, 1975, 144.p.

JOHANSON, D. C; EDEY, M. A. Lucy: os primórdios da humanidade. Reinaldo Guarany, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996, 520p.

LARAIA, R. D. B. Cultura: Um conceito antropológico. Jorge Zahar – Rio de Janeiro, 2003, 117p.

LEAKEY, R. As origens do homem. Tradução de RAMOS, V. Lisboa, Editorial Presença, Lda, 1989, 89p.

LEAKEY, R; LEWIN, R. Origens. Tradução de Almeida, M. L. C.G. Editora Universidade de Brasília, 1981, 264p.

LEAKEY, R; LEWIN, R. O povo do lago: o homem: suas origens, natureza e futuro. Tradução de GALANTI, N. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1996, 258p.

LORING BRACE, C. Os estágios da evolução humana: A origem do homem e da cultura. Zahar Editores Rio de Janeiro, Tradução (de) De Azeredo, P. R. 1979, 143p.

MAUSS, M. As técnicas corporais. In. Sociologia e Antropologia. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974.

MORIN, E. O enigma do homem: Para uma nova Antropologia. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1975, 227p.

SANTOS, G, T; ROSSI, G; JARDILINO, J. R. L. Orientações Metodológicas para Elaboração de Trabalhos Acadêmicos. 2. ed. São Paulo: Gion Editora e Publicidade, 2000. v. 1. 130 p.

TYLOR, E. B. A Ciência da Cultura. (Org) CASTRO, C. Evolucionismo Cultural/textos de Morgan, Tylor e Frazer. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005.

VASCONCELOS, C, S. O professor como produtor de sentido: Em busca de um novo sentido para a escola. Revista de Educação AEC, p. 81-99, n. 118, 2001.