Em quem acreditar?

04/09/2013 16:32

Escrito por Olavo de Carvalho | 04 Setembro 2013

kerrymentirosoQuem lançou o ataque com gás sarin que matou umas mil e cem pessoas na Síria? Foi Bashar al-Assad, parceiro dos russos, ou os jihadistas da Irmandade Muçulmana que o governo Obama apóia? O secretário de Estado John Kerry diz ter provas de que foi o primeiro, mas não mostra nenhuma. Diz que não é preciso. Que a credibilidade dos EUA já deve bastar para que todo mundo acredite na acusação sob palavra.

Bem, pode ser que os EUA tenham alguma credibilidade, mas John Kerry não tem nenhuma. Ele estreou no palco do mundo mentindo contra seu próprio país para favorecer o inimigo. Em 22 de abril de 1971, recém-chegado do Vietnã, ele testemunhou perante o Comitê de Relações Públicas do Senado que soldados americanos haviam “estuprado mulheres, cortado orelhas e cabeças, amarrado genitais humanos com fios elétricos e ligado a corrente, amputado braços e pernas, explodido corpos, atirado a esmo em civis e arrasado vilas de uma maneira que lembrava Gengis Khan”. Essa performance garantiu-lhe a primeira página nos principais jornais e o horário nobre nos maiores canais de TV da América – nada mau como motor de arranque para uma carreira política que culminaria numa candidatura à Presidência. Tal como agora não exibe as provas que diz possuir, na época ele não citou nenhuma fonte ou documento que desse respaldo às acusações. Talvez imaginasse que a credibilidade do movimento anti-guerra, então de grande sucesso na universidades, na mídia e noshow business, bastava como prova. Aconteceu que, poucos meses atrás, o mais alto oficial da inteligência soviética que já desertou para o Ocidente, o general romeno Ion Mihai Pacepa, publicou um livro (“Disinformation”, WND Books, 2013) em que conta várias operações de desinformação anti-americana, montadas pela KGB, das quais havia sido participante ou testemunha direta. Uma delas consistiu precisamente em espalhar em todos os meios esquerdistas da Europa e das Américas o rol de acusações, totalmente inventado, que o depoimento de Kerry repetiu no Senado “quase palavra por palavra” (sic).

Desinformação, stricto sensu, só existe quando a mentira comprometedora não é ouvida da boca do inimigo, mas de alguém de confiança da vítima. Estampadas no Pravda ou vociferadas pela Rádio Moscou, aquelas acusações seriam apenas notícias falsas vindas de uma potência hostil. Repetidas com ares de seriedade por um ex-tenente condecorado da Marinha americana e reproduzidas no New York Times, no Washington Post e por toda parte na mídia “respeitável”, tornavam-se desinformação de primeira ordem, uma contribuição essencial à transmutação da vitória militar americana no Vietnã em humilhante derrota política e diplomática.

Kerry nunca pagou por esse crime, mas também não se pode dizer que a reputação tão facilmente obtida tenha permanecido intacta. Em 2004, no papel de porta-voz do movimento contra a invasão do Iraque, a qual ele mesmo havia aprovado como senador, ele se apresentou candidato à presidência. E saiu por toda parte pavoneando-se das condecorações militares que havia recebido – dizia – por operações de alto risco nas quais padecera – dizia – ferimentos horríveis no Vietnã. Seus colegas de pelotão e dois dos seus ex-comandantes apareceram então dizendo que Kerry havia se machucado por acidente numa operação sem risco nenhum, e o médico que tratara dele num hospital militar informou que os ferimentos eram tão graves que ele os havia curado com um simples band-aid. Kerry perdeu a eleição para o inexpressivo George W. Bush. Seu companheiro de chapa, John Edwards, mocinho bonito que a platéia feminina anunciava como a futura grande estrela do Partido Democrata, não teve sorte melhor: viria a ter sua carreira política destruída em 2007, quando se revelou que tivera um filho ilegítimo com sua amante Rielle Hunter, acusação que ele primeiro negou indignado e em seguida admitiu com o rabo entre as pernas.

Edwards sobrevive no limbo, mas Kerry foi exumado por Barack Hussein Obama para ser seu secretário de Estado depois que Hillary Clinton se melou toda no episódio Benghazi.

Tal é o homem que se apresenta como a personificação viva da “credibilidade americana” e se apóia nela para mais uma operação’que, coerente com o programa Obama-Clinton, se destina a dar mais apoio militar aos jihadistas, como deu no Egito --  com os resultados que todo mundo conhece --, e a transformar definitivamente os EUA, como disse o ex-deputado democrata David Kucinich, em Força Aérea da Al-Qaeda.

Do outro lado, cada um sente vergonha de ter de concordar com Vladimir Putin e defender o governo Asad. Talvez por isso mesmo todos se vêem obrigados a apresentar alguma prova. E as provas têm aparecido umas atrás das outras. Primeiro veio a denúncia, na ONU, de que os rebeldes sírios usam o gás sarin (http://www.reuters.com/article/2013/05/05/us-syria-crisis-un-idUSBRE94409Z20130505). Depois veio a prova de que o irmão de Barack Obama é membro da Irmandade Muçulmana, para a qual recebeu do governo Obama uma ajudinha de 1,5 bilhão de dólares (http://www.breitbart.com/Big-Peace/2013/07/01/Flashback-Obama-Administration-Gives-1-5-Billion-To-Egypt-s-Muslim-Brotherhood). Depois, um vídeo em que os jihadistas apareciam panejando lançar foguetes carregados do gás fatídico (v. http://www.religiousfreedomcoalition.org/2013/08/28/evidence-grows-that-syrian-rebels-use-sarin-gas/). Por fim, os próprios rebeldes sírios acabaram se gabando de usar o tal gás (http://www.infowars.com/rebels-admit-responsibility-for-chemical-weapons-attack/).

O leitor está livre para escolher em quem deve acreditar.



Publicado no Diário do Comércio.

 

Fonte: http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/oriente-medio/14479-em-quem-acreditar.html