A Guerra Fria não acabou, e continua quente

11/11/2014 23:44
 
Antonio Pinho

 

É Mestre em Letras, editor do Mídia Capital, escritor e jornalista.



 
Antonio Pinho

Imaginávamos que o século XX tivesse, na verdade, terminado em 1991 junto com a queda da URSS. Imaginávamos que o século XXI tivesse iniciado em 2001 com os atentados terroristas de 11 de setembro. Imaginamos errado. 

A tirania do governo bolivariano da Venezuela contra seu povo cada vez mais escravizado, a ascensão de um terrorista e genocida Estado Islâmico e o conflito entre Rússia e Ucrânia são fatos, dentre tantos outros, que mostram uma verdade dificilmente questionável: ainda estamos na Guerra Fria. Ainda vivemos num mundo dividido em duas visões de civilização completamente inconciliáveis. Há o confronto entre visões políticas totalmente antagônicas. Tudo como há 25 anos. Vivemos num tempo de combate contra forças que querem o controle pleno da vida pelo Estado (os bolivarianos na América Latina, a Rússia, a China, a Coreia do Norte, o Estado Islâmico). Assistimos ao confronto entre o totalitarismo que se expande e aqueles que ainda não se submeteram a esse poder tirânico. Será o reinício da Guerra Fria? Ou, na verdade, ela nunca terminou? O que estamos vivendo é o recomeço de um conflito ou sua continuidade? Provavelmente o que estamos vivendo seja um pouco dos dois. Os eventos da Venezuela, da Ucrânia e o Estado Islâmico mostram que o mundo anterior a 1991 ainda vive. O cenário internacional desde então obviamente mudou, mas muita coisa do século XX continua sobrevivendo. As tensões na Venezuela e na Ucrânia demonstram que persiste a ação de forças revolucionárias que procuram se expandir e aumentar seu controle sobre todos os aspectos da vida. Esse confronto se dava entre dois grandes blocos, ou mundos, o capitalista e o comunista, liderados respectivamente pelos EUA e URSS. A desintegração da União Soviética não significou a derrota do movimento revolucionário, nem a vitória do mundo capitalista. Significou, antes, mudanças nesses dois blocos, porém não o fim do choque entre eles. 

No bloco Ocidental, há a tendência para uma convergência entre capitalismo e comunismo. Sobre uma sociedade em que se mantém a propriedade privada, e a economia de mercado, erguem-se toda a sorte de controles estatais e poderes tirânicos. A economia é de mercado, mas totalmente controlada (regulamentada) pelo Estado. Tal é a fusão entre os dois mundos antagônicos do século XX. Sobre a economia de mercado constrói-se um gigantesco poder político centralizado que, constantemente, flerta com o totalitarismo. O fenômeno da centralização política é claro na União Europeia e nos EUA de Obama. É evidente que os antigos inimigos dos soviéticos estão ganhando tons cada vez mais vermelhos. 

O bloco comunista também se metamorfoseou. A política expansionista de Putin mostra claramente sua natureza revolucionária. O comunismo pode agora se expandir sem se chamar comunismo. Putin veio da KGB e não há erro em se dizer que a Rússia é, no fim das contas, governada pela KGB, órgão que se configura como a verdadeira entidade definidora da política de Estado. A mudança no movimento revolucionário na Rússia é mais uma troca de nome e um rearranjo estratégico, contudo, sua essência permanece. Deixou de se chamar comunismo e agora é eurasianismo, mas a natureza revolucionária continua a mesma. Alexandre Dugin, o criador dessa nova ideologia, é uma nova edição de Marx. O eurasianismo é um novo tom de vermelho, uma atualização do marxismo para novos tempos. Os objetivos são idênticos aos do comunismo: a destruição do velho mundo burguês-liberal das democracias ocidentais. O inimigo maior continua o mesmo: os EUA. A mudança estratégica consiste no fato de que agora os novos revolucionários russos não são mais ateus e defensores de valores progressistas. Pelo contrário, os eurasianos se dizem defensores da tradição e da religião. 

Essa nova ideologia russa desenha novamente um mundo dividido em dois blocos. De um lado temos o bloco ocidental liberal liderado pelo EUA – que sujeitos como Putin e Dugin veem como a fonte de todos os males – e o bloco eurasiano liderado pela Rússia, nação que irradiaria a defesa da tradição e da religião. Enquanto o Ocidente degenera em imoralidades, afastando-se de sua raiz cristã, vem a Rússia afirmando defender esses mesmos valores que perdemos. Paradoxalmente, essa nova ideologia revolucionária acaba atraindo muitos conservadores, que justamente estão insatisfeitos com a queda dos valores morais no Ocidente. Por mais estranho que pareça, a revolução tomou a aparência de conservadorismo. Este é o trunfo estratégico da Rússia. Dugin, no debate que teve com Olavo de Carvalho, declarou abertamente que os EUA devem ser destruídos.


Estamos diante do palco em que se encena uma nova guerra, ou o renascer de uma velha guerra que imaginávamos terminada, a Guerra Fria. O bloco eurasiano ainda está em construção, e a invasão de partes da Ucrânia é o primeiro de uma tragédia bem maior. O projeto eurasiano de dominação compreende toda a Europa continental, Ásia e Oriente Médio. E o sucesso do bolivarianismo na América Latina o fortalece. Basta ver os acordos militares e econômicos travados entre a Rússia e o eixo Venezuela-Cuba. Se hoje a Rússia está armando a Venezuela é porque, obviamente, tem objetivos expansionistas na América Latina. A consolidação de uma Pátria Grande latino-americana, socialista e de governo centralizado, seria em seguida absorvida pelo novo império russo de Putin. 

A América Latina está, portanto, dentro dos novos planos revolucionários da Rússia que, por sua vez, vê com bons olhos o domínio de boa parte desse continente por partidos de esquerda alinhados ideologicamente com Cuba. Com a morte de Hugo Chávez, acelerou-se o processo revolucionário na Venezuela comandada por Maduro. Se Chavéz promoveu a transição ao socialismo, Maduro fez a ruptura, instaurando de vez um regime feito à imagem e semelhança do encontrado na ilha dos irmãos Castro.   

Os fatos que ocorre na Ucrânia e Venezuela são processos independentes, mas esses dois conflitos servem para mostrar que há ainda um mundo dividido em grandes blocos de poder que estão em conflito. Mas Ucrânia e Venezuela também mostram que agora – ou contrário do século XX – não há poderes políticos que sirvam de barreiras à expansão dos novos movimentos revolucionários. Bolivarianismo e eurasianismo expandem-se e não encontram oposição política forte. Os novos revolucionários marcham sobre territórios nos quais não encontram barreiras. A única resistência não é politicamente organizada. Ela é formada apenas pelo povo insatisfeito que vai às ruas expressar sua indignação. Nesse aspecto Ucrânia e Venezuela passam por algo semelhante em que o povo, espontaneamente e de forma improvisada, faz o que pode para reagir a novas formas de totalitarismo. Os ucranianos rejeitam ser mais uma vez colônia da Rússia. Eles rejeitam o eurasianismo, esse comunismo reciclado para o novo século. De forma semelhante, os venezuelanos não querem viver na miséria material criada pelo bolivarianismo, o socialismo do século XXI. Os venezuelanos rejeitaram ser colônia de Cuba. Por isso em poucos meses, desde a subida de Maduro ao poder, multiplicaram-se os presos políticos e os mortos. 

A vantagem dos movimentos revolucionários do século XXI é justamente o fato de não ter uma barreira política que detenha a expansão do totalitarismo. Hoje falta-nos um novo Churchill, uma nova Thatcher.  Ao contrário de deter os revolucionários, os políticos do Ocidente acabam colaborando com o próprio inimigo. 

Seja como for, o fato é que, se o século XX acabou em 1991, com o fim da União Soviética, o século XXI inicia em 2014, ano em que o Império Eurasiano Russo mostra a que veio. Na verdade, parece que o século XX prolonga-se, invade o século seguinte. A União Soviética volta com nova embalagem. Seja bem-vindo a Nova Guerra Fria. 


Fonte: http://www.midiacapital.com/antonio-pinho/a-guerra-fria-nao-acabou-e-continua-quente